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Delta do Parnaíba
 

O rio Parnaíba, entre o Maranhão e Piauí, é o personagem principal do terceiro maior encontro de águas salgadas e doces do mundo. Um universo de vida com mangues tão surpreendentes como os da Juréia, dunas fantásticas como as de Jericoacoara e praias ainda mais desertas que as do norte da Bahia. A diferença é que este lugar quase ninguém conhece. No Delta do Parnaíba tudo é superlativo: os mangues parecem não ter fim, as águas falseiam a linha do horizonte, as dunas se mostram inteiras. Para conhecer esse mundo, é preciso ter asas.

A natureza do delta é impressionante. Ondas oceânicas misturam com água doce dos manguezais, que emolduram dunas de areia que escondem vegetação de restinga ou florestas tropicais.Uma combinação rara de biossistemas, que revela perspectivas de um Brasil ainda não descoberto. Para os cientistas, esse ambiente cria oportunidades únicas de observação e pesquisa, já que o cara-a-cara entre o rio e o mar é um dos mais dinâmicos acontecimentos da natureza, uma circunstância especial que garante a vida de incontáveis espécies ainimais e vegetais, muitas delas ainda desconhecidas.

A visão da dunas acelera o coração,

Os 2.700 km² de área do delta correspondem a duas vezes a cidade de São Paulo. Nesse mundo de água, no de hora em hora se avista uma ou outra casinha. Haverá sempre um barco ao longe, que nunca sabemos se é o mesmo ou se já é outro, carregango pescadores ou apanhadores de carangueijo. Eles conhecem muito bem os rumos das águas e posição de cada banco de areia. E, da mesma maneira que há areia lá embaixo, há areia em cima na forma de dunas espetaculares. Ao longe, especialmente no começo do dia, a visão dessas montanhas branquíssimas acelera o coração.

Descendo o rio Parnaíba, um planeta só de ilhas.

O rio Parnaíba atravessa 1.458 km e banha 47 municípios no Piauí e no Maranhão. A partir da cidade de parnaíba, o rio se dessolve em cinco canais ( ou barras ): Igaraçu, Canárias, Caju. Carrapato ou melancieira e TUTÓIA. E além dessas "avenidas", surgem muitos, quase incontáveis igarapés, que assim formam um planeta só de ilhas, muitas delas ainda tão virgem quanto nos tempos de Nicolau Resende, primeiro navegador português a chegar lá em 1.571. À medida que se desce o rio, vão-se suscedendo as ilhas do delta - ora com pequenas prais de areia, ora com a vegetação fechando sobre o rio. Bando de guarás vermelhos, garças, coelheiros riscam o céu a todo instante. Jacus e socós ( aves taludas, que gostam de chão ) se expõem bem mais do que seria aconselhável, enquanto um quero-quero faz rasantes sobre o barco. Mais adiante, pássaros lindos trocam de uma árvore para outra. São xexéus, maitacas, rei congos, tucanos e pica-paus, uma comunidade barulhenta que sempre avisa que o homem está chegando.Já nas águas pardecentas, espécies de rio e mar se misturam: robalos, baiacus, tainhas, carangueijos vermelhos, camarões-rosa, jacarés-de-papo-amarelo, tartarugas e até arrais e cações ( tubarões ).

Piauí e Maranhão unidos contra a devastação.

Infelizmente, nem tudo no delta é uma aquarela: o trecho entre Parnaíba e Ilha da Canárias ( quase meio caminho da jornada rumo ao Atlântico ) está bastante devastado. Mas a maré ainda pode estar para peixe. Anda em boa marcha um projeto de zoneamento ecológico, envolvendo os governos do Maranhão e Piauí, sócios geográficos  no Delta do Parnaíba ( 65% da área está no Maranhão e 34% no Piauí ). Os recursos do projeto destinam-se  à conscientização da população de áreas degradadas e implantação de um plano de desenvolvimento sustentado.

A Ilha do Cajú, uma das maiores e mais conhecidas do Delta, é um dos patrimônios que vingaram. O lugar é um exemplo de preservação ecológica, mantida a ferro, fogo e vários investimentos. Além dos bichos nascidos lá mesmo, outras aparecem em busca de árvores e lagos para procriação. Foi nessa linha ilha fantática que encontramos uma marreca, salva por um triz de ser devorada por dois gaviões. Em que pese o respeito às indiscutíveis leis da natureza, uma interferência não planejada representava uma chance rar e especialíssima de sobrevivência. Ninguém com essa sorte, merecia morrer tão cedo.

Texto extraído do CD-ROM "Paraísos Ecológicos Brasileiros" - uma seleção das melhores reportagens da revista TERRA.

 

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